FisicaNet - Prof. Alberto Ricardo Prass
VESTIBULAR UFRGS COBERTURA COMPLETA
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Médias e Desvios da Prova de Português parte Objetiva

Estimando o Desvio-Padrão da Prova Objetiva de Português na UFRGS

Como obter uma estimativa estatística da dispersão das notas da prova objetiva a partir das médias e dos desvios-padrão de Português com Redação e da Redação.

Um problema aparentemente simples

Nas estatísticas do vestibular da UFRGS, podemos encontrar informações sobre a média e o desvio-padrão das notas de determinadas provas. Em algumas situações, entretanto, queremos conhecer uma informação que não é apresentada diretamente: o desvio-padrão de uma parte da prova.

É exatamente o que acontece quando consideramos a prova de Português com Redação, formada pela prova objetiva de Português e pela Redação.

A partir das médias conhecidas, é possível determinar diretamente a média da prova objetiva. Porém, quando passamos dos valores médios para os desvios-padrão, a matemática fica mais interessante — e é preciso tomar cuidado para não cometer um erro bastante comum.

Os dados disponíveis

Consideremos os seguintes valores:

Componente Média Desvio-padrão
Português + Redação 19,1267 3,7546
Redação 9,6599 2,3573
Português objetiva ? ?

A prova de Português com Redação é composta pelas duas parcelas. Assim, podemos representar a nota total por

\[ P = O + R \]

em que \(P\) representa a nota de Português com Redação, \(O\) representa a nota da prova objetiva de Português e \(R\) representa a nota da Redação.

A média da prova objetiva

Para as médias, a operação é realmente simples. Como a média de uma soma é igual à soma das médias, temos:

\[ \bar{P} = \bar{O} + \bar{R} \]

Portanto:

\[ \bar{O} = \bar{P} - \bar{R} \]

Substituindo os valores conhecidos:

\[ \bar{O} = 19,1267 - 9,6599 = \boxed{9,4668} \]
Resultado:

A média estimada da prova objetiva de Português é 9,4668.

Até aqui não há qualquer dificuldade estatística. O problema começa quando queremos fazer a mesma coisa com os desvios-padrão.

Por que não podemos simplesmente subtrair os desvios-padrão?

Um raciocínio intuitivo, mas incorreto, seria fazer:

\[ 3,7546 - 2,3573 = 1,3973 \]

e concluir que \(1,3973\) seria o desvio-padrão da prova objetiva.

Isso não é válido.

O motivo é fundamental: o desvio-padrão não se comporta como a média quando somamos duas variáveis. Para trabalhar com desvios-padrão, precisamos trabalhar primeiro com as variâncias.

A variância da soma

Para duas variáveis aleatórias \(O\) e \(R\), a variância da soma é:

\[ \operatorname{Var}(O+R) = \operatorname{Var}(O) + \operatorname{Var}(R) + 2\operatorname{Cov}(O,R) \]

Como o desvio-padrão é a raiz quadrada da variância, podemos escrever:

\[ \sigma_P^2 = \sigma_O^2 + \sigma_R^2 + 2\operatorname{Cov}(O,R) \]

O termo que torna o problema mais interessante é a covariância.

Ela mede como as duas notas variam conjuntamente. Se candidatos que obtêm notas altas na prova objetiva tendem também a obter notas altas na redação, existe uma covariância positiva.

Se, por outro lado, notas altas em uma parte estiverem associadas a notas baixas na outra, a covariância será negativa.

Escrevendo a equação em termos da correlação

A covariância pode ser expressa por meio do coeficiente de correlação \(r\):

\[ \operatorname{Cov}(O,R) = r\sigma_O\sigma_R \]

Assim:

\[ \sigma_P^2 = \sigma_O^2 + \sigma_R^2 + 2r\sigma_O\sigma_R \]

Como queremos determinar \(\sigma_O\), podemos reorganizar essa expressão como uma equação quadrática:

\[ \sigma_O^2 + 2r\sigma_R\sigma_O + \sigma_R^2 - \sigma_P^2 = 0 \]

A solução positiva dessa equação fornece:

\[ \boxed{ \sigma_O = -r\sigma_R + \sqrt{ \sigma_P^2 - \sigma_R^2(1-r^2) } } \]

O dado que está faltando

Não é possível determinar exatamente o desvio-padrão da prova objetiva apenas com as médias e os dois desvios-padrão conhecidos.

É necessário conhecer também a correlação — ou, equivalentemente, a covariância — entre a nota da prova objetiva e a nota da redação.

Essa é uma conclusão estatística importante. Não se trata de falta de uma técnica de cálculo: simplesmente existe uma informação que não está contida nos três valores fornecidos.

Diferentes correlações entre objetiva e redação podem produzir exatamente a mesma média e o mesmo desvio-padrão para Português com Redação.

Uma estimativa possível: assumir covariância nula

Se não tivermos nenhuma informação sobre a correlação entre objetiva e redação, uma hipótese inicial possível é considerar que as duas notas sejam estatisticamente independentes.

Nesse caso:

\[ \operatorname{Cov}(O,R)=0 \]

e a expressão da variância fica:

\[ \sigma_P^2 = \sigma_O^2 + \sigma_R^2 \]

Isolando o desvio-padrão da objetiva:

\[ \sigma_O = \sqrt{ \sigma_P^2-\sigma_R^2 } \]

Substituindo os valores da UFRGS:

\[ \sigma_O = \sqrt{ 3,7546^2 - 2,3573^2 } \]
\[ \sigma_O = \sqrt{ 14,0970-5,5579 } \]
\[ \boxed{ \sigma_O \approx 2,9224 } \]
Estimativa sob a hipótese de independência:

O desvio-padrão da prova objetiva de Português seria aproximadamente 2,92.

Mas e se objetiva e redação forem correlacionadas?

Esse é provavelmente o ponto mais importante de toda a análise.

É perfeitamente razoável imaginar que exista alguma correlação positiva entre o desempenho na prova objetiva de Português e o desempenho na Redação. Afinal, conhecimentos relacionados à leitura, interpretação, domínio da língua e capacidade de argumentação podem influenciar as duas partes da avaliação.

Se a correlação for positiva, o resultado muda significativamente.

Correlação \(r\) DP estimado da objetiva
−0,50 ≈ 4,77
−0,25 ≈ 3,87
0,00 ≈ 2,92
+0,25 ≈ 2,16
+0,40 ≈ 1,75
+0,50 ≈ 1,51
+0,60 ≈ 1,23

A tabela mostra claramente por que a correlação é tão importante. Para uma mesma média e um mesmo desvio-padrão de Português com Redação, diferentes relações estatísticas entre objetiva e redação produzem diferentes desvios-padrão para a prova objetiva.

Quais são os limites possíveis?

Mesmo sem conhecer a correlação, podemos estabelecer limites matemáticos para o desvio-padrão da prova objetiva.

Como o coeficiente de correlação está limitado ao intervalo \(-1\leq r\leq1\), temos:

\[ |\sigma_P-\sigma_R| \leq \sigma_O \leq \sigma_P+\sigma_R \]

Portanto:

\[ |3,7546-2,3573| \leq \sigma_O \leq 3,7546+2,3573 \]
\[ \boxed{ 1,3973 \leq \sigma_O \leq 6,1119 } \]

Esses são os limites matemáticos extremos. Entretanto, eles correspondem a situações de correlação perfeita, portanto não devem ser interpretados como uma estimativa realista sem evidências de que exista uma relação tão extrema entre as duas notas.

Conclusão

A partir dos dados disponíveis, podemos determinar com segurança a média da prova objetiva:

\[ \boxed{ \bar O = 9,4668 } \]

O desvio-padrão, entretanto, não pode ser obtido simplesmente subtraindo os dois desvios-padrão. Para isso, é necessário levar em consideração a covariância entre a nota da prova objetiva e a nota da redação.

Na ausência dessa informação, uma hipótese estatística simples é assumir covariância nula. Nesse caso, obtemos:

\[ \boxed{ \sigma_{\text{Objetiva}} \approx 2,9224 } \]

Portanto, 2,92 pode ser utilizado como uma estimativa inicial do desvio-padrão da prova objetiva, desde que fique claro que esse valor depende da hipótese de independência entre objetiva e redação.

Se for possível obter dados individuais dos candidatos, entretanto, o cenário muda completamente: bastaria calcular diretamente a correlação entre as duas partes da prova. Com essa informação, o desvio-padrão da objetiva poderia ser estimado de maneira muito mais precisa.

Em resumo:

  • Média de Português + Redação: 19,1267
  • Média da Redação: 9,6599
  • Média da Objetiva: 9,4668
  • DP de Português + Redação: 3,7546
  • DP da Redação: 2,3573
  • DP estimado da Objetiva, assumindo covariância zero: ≈ 2,9224

Uma observação importante sobre a média da prova objetiva

A média que interessa para o cálculo do desempenho final não deve ser confundida com a média preliminar divulgada pela UFRGS.

A UFRGS divulga uma média preliminar para as provas objetivas. Entretanto, essa média é calculada considerando todos os candidatos que realizaram a prova. Ela inclui, portanto, também candidatos que posteriormente são eliminados pelos critérios de corte.

Para o cálculo final do desempenho e, consequentemente, do argumento utilizado na classificação, a situação é diferente. Depois de aplicados os critérios de eliminação, passam a ser considerados apenas os candidatos que não foram eliminados.

Isso produz uma população estatisticamente diferente da população original de candidatos. Como os candidatos eliminados tendem a apresentar desempenho inferior, sua retirada modifica não apenas a média, mas também a distribuição das notas e seus respectivos desvios-padrão.

Assim, a média preliminar da prova objetiva, embora seja uma informação útil, não é necessariamente a média adequada para representar o grupo utilizado no cálculo final do desempenho.

A média que buscamos estimar neste estudo tem justamente outra finalidade: fornecer ao candidato uma aproximação da média da prova objetiva dentro do grupo de candidatos que permanece após os critérios de corte.

Esse detalhe é particularmente importante porque o grupo de candidatos não eliminados possui, em princípio, um nível de desempenho superior ao conjunto original de participantes. Portanto, é esperado que sua distribuição de notas seja diferente da distribuição observada quando todos os candidatos são considerados.

Em outras palavras:

a média preliminar responde à pergunta:

\[ \text{“Qual foi o desempenho médio de todos os candidatos?”} \]

enquanto a média utilizada no cálculo final precisa responder a uma pergunta diferente:

\[ \text{“Qual foi o desempenho médio do grupo de candidatos que não foi eliminado?”} \]

É justamente por isso que a estimativa da média e do desvio-padrão da prova objetiva a partir dos dados de Português com Redação e da Redação pode ser útil para análises e prognósticos do vestibular.

Naturalmente, trata-se de uma estimativa estatística e não de uma substituição dos dados oficiais. Quanto mais informações forem disponibilizadas sobre a população de candidatos não eliminados, mais precisa poderá ser a reconstrução dessa distribuição.